O avião da praça

Brasil, Geografia

Não são poucos os milhares de pessoas que passam todos os dias pela BR 116, em Canoas (RS), e que por consequência cruzam em frente ao avião que está lá, transformado em monumento, na praça às margens da rodovia. É daqueles pontos da paisagem urbana com o qual nos acostumamos e ao qual poucas vezes prestamos atenção por mais de alguns segundos.

O avião visto pela foto de satélite, ao lado da BR 116 (Google Earth)

O avião visto pela foto de satélite, ao lado da BR 116 (Google Earth)

Numa das minhas passagens pelo local, me perguntei: “Afinal, que diabos de avião é esse? E quem foi que o colocou ali, se equilibrando sobre alguns pilares de concreto?”

A praça Santos Dumont (esse é o nome oficial da “Praça do Avião”) tem até verbete na Wikipedia. Portanto a pesquisa não foi das mais dificeis, mas acho que vale publicar as informações que satisfizeram minha curiosidade.

O avião é uma aeronave de combate inglesa, um F8 Gloster Meteor, doado à cidade pela Força Aérea Brasileira. O monumento é uma homenagem à importância da Base Aérea de Canoas ao desenvolvimento do município. O caça custou 214 toneladas de algodão (mas essa história eu explico mais adiante).

O vôo inaugural de um avião da série Gloster Meteor foi em 05 de março de 1943. Foi o único avião a jato dos Aliados a entrar em operação antes do final da II Guerra Mundial.

Em 1953 o governo brasileiro comprou 70 Gloster Meteor usados da Força Area Britânica (60 do modelo F8, incluindo o que está na praça, e 10 do modelo T7). Os aviões foram usados no Brasil até 1974, quando o último deles foi aposentado pela Força Aérea Brasileira.

Antes disso, em 1968, em plena ditadura militar, uma dessas aeronaves foi retirada de circulação ao completar 21 mil horas de vôo. Numa iniciativa dos militares, o avião foi colocado na então “praça La Salle”. A inauguração do monumento foi em 20 de janeiro. (Foi só em 1977 que a praça recebeu o nome de Alberto Santos Dumont.)

O F8 Gloster Meteor nos dias de hoje, no meio da praça em Canoas

O F8 Gloster Meteor nos dias de hoje, no meio da praça em Canoas

Mas e o preço? Bem… Segundo a Conab, o preço mínimo de referência de uma tonelada de algodão hoje no Brasil é de R$ 2.973,30. Se o Brasil pagou 15 mil toneladas de algodão por 70 aviões, cada aeronave em valores atuais custou R$ 637.135,71.

Ah, por último uma recomendação importante: ao passar de carro em frente à Praça do Avião não desvie o olhar para ver o monumento. Mantenha o olho no carro da frente, para seu próprio bem. Aquele exato ponto da BR 116 está em quarto lugar no ranking nacional dos locais com maior número de acidentes de trânsito.

  • Um agradecimento à colega jornalista Nuria Saldanha, pela ajuda com a pesquisa sobre os preços do algodão
6 comentários

6 respostas

  1. É o mínimo que eu poderia fazer. Fiz minha pesquisa, mas considerei a sua bem mais conclusiva e obviamente que a autoria deveria e deve sempre ser respeitada, assim como a fonte.
    Obrigada por sua compreensão: poucos publicam esta notícia e o assunto é alarmante.
    Adoro seu blog e você está de parabéns!

  2. Andressa says:

    A última vez que passei por essa praça eu estava a caminho de Gravataí. Perdida na 116!
    Rodei 60 km até São Leopoldo, quando vi que algo estava errado, e muito.

  3. Lu K. says:

    hahaha…. desde pequena, passava por lá e tinha a mesma dúvida! quando criança, olhava e pensava “será que ele voa?”
    adorei a explicação. beijos

  4. marcelo schneider says:

    E aí? Tenho tentado me comunicar contigo por twitter, reagindo aos teus posts, mas hoje me dei conta que vc nao em segue, ou seja, provavelmente nunca recebu o que enviei. Lamentavel… o que foi que eu te fiz? buaaaaaaaaaaaaa
    abs!

  5. brunette says:

    curioso mesmo, bonato, é que esse avião meio sem graça é listado nos “guias turísticos” como o PRINCIPAL ponto turístico de Canoas. O que só vem a confirmar minha tese de que, se Canoas não é a cidade mais feia do mundo, está no top 10.

  6. moacir says:

    Ditadura, não. Período de excepcionalidade institucional – vale lembrar que 1/3 do pessoal daquele período está com as 4 patas no tual governo. O resto morreu.

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