Provavelmente você assistiu à cena abaixo, pela TV, há cerca de duas semanas. Obama encontra Lula na reunião do G20 e diz: “That’s my man. He’s the most popular politician on earth.”
Repare que Barack Obama encerra a cena fazendo uma brincadeira: “É porque ele é boa pinta!”
Mas você percebeu para quem o presidente dos EUA dirige a frase? É para um cara de barba, que poucos segundos antes havia corrido para ajudar Lula, assim que ficou claro que ele teria que bater um papo com o norte-americano. E quem é que dá esse auxílio providencial (e que não é cumprimentado Timothy Geithner e Kevin Rudd, que estão em volta)?
O nome dele é Sérgio Xavier Ferreira, um tradutor profissional carioca de 59 anos. É Ferreira quem torna possível o diálogo do nosso presidente-ex-torneiro-mecânico com os principais líderes do planeta.
Dias atrás passei algum tempo absorto, pensando: Que trabalho interessante! Que tarefa única este profissional tem. Quantas conversas secretíssimas ele já testemunhou e mediou!
E ainda há o fato de que ele acaba entrando em lugares onde apenas o presidente Lula entra. Nenhum assessor, nenhum outro funcionário do governo tem acesso a tantos recintos, durante as viagens internacionais.
Sérgio Ferreira pode ser uma figura discreta, mas não é transparente. Ele aparece em algumas das principais fotos das visitas oficiais de Lula ao exterior. Veja nas fotos abaixo:
Não faltam oportunidades em que o presidente precisa de ajuda. Oportunidades em que Sérgio Ferreira é o intermediário entre Lula e gente muito importante.

Ferreira na Casa Branca, com Obama e Bush, e em visita à rainha da Holanda
Um profissional como Sérgio Ferreira deve ter muitas histórias para contar. Mas ao que tudo indica, ele não as conta. Não encontrei nenhuma entrevista dele publicada na internet. Está aí uma matéria que eu gostaria de fazer.
No entanto, muitos jornais e revistas já se dedicaram a detalhar um pouco mais quem é esse sujeito que aparece em tantas fotos.
O Estado de S. Paulo conta que o tradutor acompanha Lula há 17 anos. Antes da eleição em 2002, chegou a prestar o serviço gratuitamente. Hoje Ferreira é convocado principalmente quando o presidente, que fala apenas português, precisa dar (e também receber) o recado em inglês. O Estadão informa ainda:
Desde 2005, Ferreira acompanha parte das viagens internacionais de Lula como “convidado especial” da comitiva. Nos dois primeiros anos do governo, atuou como assessor especial da Presidência, mas desligou-se do posto. Desde então, passou a ser contratado pelo Cerimonial do Itamaraty, por meio da Global Multilingue, um escritório de intérpretes sediado no Rio. (…) Discreto, o intérprete é visto no Planalto como uma espécie de confessor – nem mesmo os assessores de Lula extraem trechos das conversas privadas que o presidente mantém com outros líderes.
Outro desafio é conseguir traduzir o discurso informal e improvisado do presidente. Quando ele dispara o habitual “companheiro”, o tradutor pode passar rapidamente do “colleague” para o “brother”.
Sérgio Ferreira também acaba salvando Lula de algumas confusões, como relatou a revista Isto É Dinheiro, em 2006:
O presidente Lula, apesar de boquirroto no cotidiano brasileiro, é extremamente formal quando está com outros chefes de estado. Mesmo assim, não perde chance para esgrimir seu vocabulário popular. O intérprete oficial da presidência, Sérgio Xavier Ferreira, que acompanhou Lula em reuniões com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e com a rainha da Inglaterra, Elizabeth II, já revelou que é surpreendido por menções às “quebradeiras de coco de babaçu” e outros termos típicos do Brasil, de tradução complexa. Mas isso não é nada se comparado a uma gafe que o presidente cometeu em 2003, em uma viajem à Namíbia, na África. Durante o discurso, Lula soltou uma frase infeliz. “Quem chega a Windhoek não parece que está em um país africano. Poucas cidades do mundo são tão limpas, tão bonitas arquitetonicamente e tem um povo tão extraordinário como tem essa cidade”, referiu-se Lula à capital da Namíbia. Ao traduzir para o inglês, Xavier omitiu a palavra “limpa” e pulou para o comentário sobre a beleza da cidade, evitando a ofensa ao continente africano.
Sérgio Xavier Ferreira é a tecla SAP de Lula.
