A calvície e a família da mãe

Gente, Natureza

A culpa é da sua mãe, mas seu pai é cúmplice

A culpa é da sua mãe, mas seu pai é cúmplice

Com a calvície espalhada por todos os lados da minha família, fica difícil saber a origem do problema que começa a afetar a mim e a outros parentes da mesma geração. De qualquer forma, sempre fiquei intrigado com a afirmação de que a queda de cabelas era uma herança genética da família materna.

Para saber se isso é verdade, vamos aos fatos e à pesquisa:

A cobertura capilar diminui pela ação de uma substância chamada DHT, que se forma a partir do hormônio testosterona. É certo que essa química interna é determinada pelo DNA da pessoa. Um dos gatilhos está no cromossomo X, que o homem herda da mãe (já que o pai participa com o Y).

Por outro lado, cientistas descobriram recentemente que o cromossomo 20 também carrega comandos genéticos que desencadeiam uma maior produção de DHT. E desse tal cromossomo 20 nós temos duas cópias, uma herdada da mãe e outra do pai. Abre-se portanto a possibilidade de que os genes herdados da mãe não sejam os únicos responsáveis pela calvície.

Os cientistas alertam que a descoberta não implica, no momento, em uma cura da calvície masculina, mas oferece excelente possibilidade no futuro.

Existe uma pesquisa feita nos EUA, em 2004, que dá uma resposta bem clara para essa questão da hereditariedade. Ela foi realizada pelo departamento de epidemiologia da indústria farmacêutica Merck, e diz o seguinte:

Nossos resultados sugerem que a probabilidade de queda de cabelo nos homens depende do histórico familiar e da idade. A calvície do pai de um determinado homem também tem um papel importante ao aumentar o risco de queda de cabelo deste indivíduo, seja em conjunção com um histórico de perda de cabelo da mãe ou a queda de cabelo do avô materno.

Em resumo: se você é careca a responsabilidade é dos genes da sua mãe ou do seu avô materno. Mas a calvície do seu pai também tem culpa no cartório.

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Guindastes e arranha-céus de Dubai

Mundo
Alguns dos cerca de 1000 guindastes de Dubai

Alguns dos cerca de 1000 guindastes de Dubai

O colega Cristiano Dalcin escreveu um post em que convocou a assessoria investigativa do Tadeu Schmidt, com seu quadro Detetive Virtual, do Fantástico.

Dei um tempo para o Schmidt aparecer, mas pelo jeito ele não se interessou pelos questionamentos sobre as fotos dos arranha-céus de Dubai, nos Emirados Árabes. Este blog não tem a intenção de competir com o Fantástico, até porque a ideia deles nem é tão nova assim (vide Hoax Slayer) e também porque o Tadeu tem equipe e pode consultar especialistas fora pessoalmente. Aqui neste blog não há equipe e não há pesquisa fora dos meios virtuais. De qualquer forma, tomei a questão do Dalcin e resolvi elucidá-la. Vamos ao trabalho.

Dubai realmente é um grande canteiro de obras. São prédios imensos, feitos para impressionar. Mesmo assim é impossível afirmar que 25% dos guindastes do mundo estejam nesta cidade. O especialista em números do Wall Street Journal foi investigar essa mesma questão. Carl Bialik ficou intrigado com o fato de que a tal afirmação está sendo tão difundida na mídia (com percentuais que variam de 15% a 50%).

É mais um caso de incorreções que, repetidas incontáveis vezes, acabam sendo dadas como verdades. O jornalista consultou diversas fontes, inclusive o diretor de uma fornecedora de guindastes que atende o Oriente Médio e levantou alguns pontos interessantes:

  • A maioria dos artigos fala da operação dos “guindastes de torres” em Dubai, que segundo o empresário poderia ficar em torno de 800 a 1000 equipamentos instalados.
  • Ninguém sabe quantos desses guindastes existem no mundo. Pode haver 100.000 ou até 150.000. Portanto, Dubai não poderia ter mais do que 1% dos guindastes do planeta.
  • Por outro lado, ao delimitar as estatísticas aos guidastes gigantes, necessários para os arranha-céus, pode-se sim chegar a um cálculo de 15% a 25% para Dubai.

Como eu escrevi antes, qualquer projeção não passa de chute. A revista Cranes Today, especializada no setor de guindastes, lembra que mesmo que existam 1000 guindastes de torres em operação em Dubai isso ainda não chega nem perto dos 1500 instalados no Reino Unido. Ah, e sem falar nos que operam no vasto território dos EUA, ou ainda na China, onde não há poucos números oficiais sobre a intensa indústria da construção civil.

Um executivo da empresa Liebherr, uma das maiores do ramo de maquinário para construção, disse à ENR (publicação especializada em engenharia), que a estatística é mito e não passa de uma jogada de marketing promovida por Dubai.

Rechaçada a afirmativa de que Dubai tem um quarto dos guindastes do planeta, vamos às fotos.

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Burj Dubai é uma realidade. Não é obra de Photoshop!

Esta primeira é do Burj Dubai, edifício que está em fase final de construção e terá 818 metros de altura. Será a estrutura mais alta do planeta. Para quem duvidar da existência dele, há incontáveis vídeos no Youtube mostrando a obra (que também aparece nas fotos de satélite do Google Maps). Se a foto que o Dalcin recebeu é de verdade ou não, difícil dizer. Mas tudo indica que sim. Ela foi retirada do site oficial do projeto. Por que alguém iria forjar a imagem de algo que existe e pode ser facilmente fotografado?

Vista do alto do Burj Dubai

Vista do alto do Burj Dubai

Já esta segunda foto também é real. Ela mostra outros arranha-céus de Dubai envoltos pela névoa ao amanhecer. A foto que o Dalcin recebeu é apenas a primeira de uma série de belíssimas imagens publicadas, ainda no ano de 2006, por um site de arquitetura e uma página russa de variedades. Vale a pena clicar em um desses dois links para ver as fotos tiradas do topo do Burj Dubai (que ainda não era tão mais alto que os outros prédios).

Dubai vista do alto, usando o Google Earth

Dubai vista do alto, usando o Google Earth

Se você for ao Google Earth, acionar a visão de construções em 3D, posicionar a tela sobre o ponto onde está o Burj e mirar no horizonte, terá uma visão semelhante à foto, só que sem a neblina. (Arquivo KMZ)

Já a última foto do email recebido pelo Cristiano Dalcin, não tem mistério. Existe sim uma curvatura na imagem…

Topo do Burj Dubai fotografado com uma grande angular

Topo do Burj Dubai fotografado com uma grande angular

… mas a tal curvatura no horizonte não está lá porque o prédio é tão alto que possibilita observar a redondice do nosso planeta. A curvatura é o simples efeito de uma lente grande angular, que permite uma foto com maior amplitude. O horizonte está curvado da mesma maneira que está curvada a praia e a plataforma perto dos pés do fotógrafo.

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O tradutor de Lula

Gente

Provavelmente você assistiu à cena abaixo, pela TV, há cerca de duas semanas. Obama encontra Lula na reunião do G20 e diz: “That’s my man. He’s the most popular politician on earth.”

Repare que Barack Obama encerra a cena fazendo uma brincadeira: “É porque ele é boa pinta!”

Mas você percebeu para quem o presidente dos EUA dirige a frase? É para um cara de barba, que poucos segundos antes havia corrido para ajudar Lula, assim que ficou claro que ele teria que bater um papo com o norte-americano. E quem é que dá esse auxílio providencial (e que não é cumprimentado Timothy Geithner e Kevin Rudd, que estão em volta)?

O nome dele é Sérgio Xavier Ferreira, um tradutor profissional carioca de 59 anos. É Ferreira quem torna possível o diálogo do nosso presidente-ex-torneiro-mecânico com os principais líderes do planeta.

Dias atrás passei algum tempo absorto, pensando: Que trabalho interessante! Que tarefa única este profissional tem. Quantas conversas secretíssimas ele já testemunhou e mediou!

E ainda há o fato de que ele acaba entrando em lugares onde apenas o presidente Lula entra. Nenhum assessor, nenhum outro funcionário do governo tem acesso a tantos recintos, durante as viagens internacionais.

Sérgio Ferreira pode ser uma figura discreta, mas não é transparente. Ele aparece em algumas das principais fotos das visitas oficiais de Lula ao exterior. Veja nas fotos abaixo:

Sérgio Ferreira na Casa Branca

Olha aí o Sérgio Ferreira dando um passeio na Casa Branca

Não faltam oportunidades em que o presidente precisa de ajuda. Oportunidades em que Sérgio Ferreira é o intermediário entre Lula e gente muito importante.

Sérgio Ferreira circulando pela Casa Branca, com Obama e Bush, e em visita à rainha da Holanda

Ferreira na Casa Branca, com Obama e Bush, e em visita à rainha da Holanda

Um profissional como Sérgio Ferreira deve ter muitas histórias para contar. Mas ao que tudo indica, ele não as conta. Não encontrei nenhuma entrevista dele publicada na internet. Está aí uma matéria que eu gostaria de fazer.

No entanto, muitos jornais e revistas já se dedicaram a detalhar um pouco mais quem é esse sujeito que aparece em tantas fotos.

O Estado de S. Paulo conta que o tradutor acompanha Lula há 17 anos. Antes da eleição em 2002, chegou a prestar o serviço gratuitamente. Hoje Ferreira é convocado principalmente quando o presidente, que fala apenas português, precisa dar (e também receber) o recado em inglês. O Estadão informa ainda:

Desde 2005, Ferreira acompanha parte das viagens internacionais de Lula como “convidado especial” da comitiva. Nos dois primeiros anos do governo, atuou como assessor especial da Presidência, mas desligou-se do posto. Desde então, passou a ser contratado pelo Cerimonial do Itamaraty, por meio da Global Multilingue, um escritório de intérpretes sediado no Rio. (…) Discreto, o intérprete é visto no Planalto como uma espécie de confessor – nem mesmo os assessores de Lula extraem trechos das conversas privadas que o presidente mantém com outros líderes.

Outro desafio é conseguir traduzir o discurso informal e improvisado do presidente. Quando ele dispara o habitual “companheiro”, o tradutor pode passar rapidamente do “colleague” para o “brother”.

Sérgio Ferreira também acaba salvando Lula de algumas confusões, como relatou a revista Isto É Dinheiro, em 2006:

O presidente Lula, apesar de boquirroto no cotidiano brasileiro, é extremamente formal quando está com outros chefes de estado. Mesmo assim, não perde chance para esgrimir seu vocabulário popular. O intérprete oficial da presidência, Sérgio Xavier Ferreira, que acompanhou Lula em reuniões com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e com a rainha da Inglaterra, Elizabeth II, já revelou que é surpreendido por menções às “quebradeiras de coco de babaçu” e outros termos típicos do Brasil, de tradução complexa. Mas isso não é nada se comparado a uma gafe que o presidente cometeu em 2003, em uma viajem à Namíbia, na África. Durante o discurso, Lula soltou uma frase infeliz. “Quem chega a Windhoek não parece que está em um país africano. Poucas cidades do mundo são tão limpas, tão bonitas arquitetonicamente e tem um povo tão extraordinário como tem essa cidade”, referiu-se Lula à capital da Namíbia. Ao traduzir para o inglês, Xavier omitiu a palavra “limpa” e pulou para o comentário sobre a beleza da cidade, evitando a ofensa ao continente africano.

Sérgio Xavier Ferreira é a tecla SAP de Lula.

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Uma ponte tão larga quanto longa

Mundo
Avril, a guia

Avril, a guia

Em dezembro de 2008 estive em Dublin, capital da Irlanda. Uma das coisas que fiz para conhecer a cidade melhor, foi me juntar a um “tour a pé”:  um bando de turistas com frio caminhando pelos principais pontos turísticos, com uma guia local.

Uma das coisas que a Srta. Avril disse e que mais me deixou curioso foi um detalhe sobre a ponte O’Connell, que cruza o rio Liffey e que é uma das principais vias da cidade. Gabou-se Avril: “Esta ponte é a única do mundo que tem mais comprimento do que extensão”. Na hora realmente ela parecia estar certa. Com suas oito pistas de rolamento, e mais três largas calçadas de pedestres, a afirmação fazia sentido.

Mas vamos ao trabalho! Será que a srta. Avril estava mesmo certa?

Em termos de medição, o Google Earth mostra que ela deu uma informação correta:

Ponte O'Connell, sobre o rio Liffey, em Dublin (imagem Google Earth)

Dublin: ponte O

Mas e quanto à afirmação de que a ponte é a única do mundo com estas características?

Alguns sites (e até mesmo a Wikipedia) são menos ambiciosos e dizem que a O’Connell é a única da Europa com comprimento maior que a extensão. Mas será mesmo? Vamos procurar…

Por onde começar? Quem sabe pela cidade que é famosa por suas pontes e canais: Amsterdam! E olha que não foi difícil por lá achar uma dúzia de pontes mais largas do que longas. Que tal esta?

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Amsterdam: cruzamento das ruas Leidseplein e Leidsekade

Ficou em dúvida? Então olha essa… (Não precisa nem usar a régua!)

Amsterdam: Koningsplein

Amsterdam: Koningsplein

Mas o melhor vem agora. Será que pontes mais largas do que compridas são exclusividade da arquitetura europeia? Claro que não! Nem é preciso ir longe para encontrar uma assim. Até o Rio Grande do Sul tem. Basta dar uma olhada nos arredores da PUC aqui de Porto Alegre.

Porto Alegre: Ipiranga com Cristiano Fischer

Porto Alegre: Ipiranga com Cristiano Fischer

Portanto, eu tenho que dizer, Srta. Avril: “Unfortunatelly, you were WRONG.”

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A perna mecânica de Roberto Carlos

Gente

Roberto Carlos em DetalhesNo início do mês o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro confirmou uma decisão anterior e manteve a proibição de que seja editado e vendido o livro “Roberto Carlos em Detalhes“, de Paulo Cesar de Araújo.

O lançamento da obra havia sido feito em 2006. Araújo passou 16 anos pesquisando a vida do “rei”. Entrevistou 200 pessoas.

Mas a biografia não-autorizada deixou Roberto Carlos irritado. Ele entrou com processo na justiça alegando que o livro invadia sua privacidade. O cantor tem motivos para pensar assim.

Só que Roberto, assim como a maioria dos artistas, ignora o poder de difusão da internet. O material está proibido nas livrarias, mas uma versão em PDF pode facilmente ser encontrada em redes de compartilhamento de arquivos.

O livro, como o próprio título já diz, é rico em detalhes.  Um dos episódios narrados com riqueza é o de 29 de junho de 1947, dia de São Pedro. Aos seis anos de idade, na cidade natal de Cachoeiro de Itapemirim, interior do Espírito Santo, Roberto Carlos tinha a perna direita dilacerada pelas rodas de um trem em movimento.

Leia um trecho do que conta Paulo César de Araújo em seu livro proibido:

Roberto Carlos

Roberto Carlos

Naquele dia, Cachoeiro amanheceu sorrindo e em festa para saudar o seu santo padroeiro que, segundo a Igreja Católica, foi morto e crucificado nessa data em Roma, durante o reinado do imperador Nero, no ano 65 d. C. Era feriado na cidade, dia de desfiles, músicas, bandeiras, discursos, ruas cheias de gente e muita alegria. (…)

Como tantas outras crianças da cidade, naquele dia Roberto Carlos saiu cedo e animado de casa para assistir aos festejos. Era tanta badalação que muitos pais preparavam roupa nova para os filhos estrearem justamente nesse dia. Por isso Zunga (como Roberto era chamado na infância) estava ainda mais contente, porque iria desfilar com os sapatinhos novos que ganhara na véspera. E qual criança não fica feliz ao ganhar uma roupinha ou um novo par de sapatos? Logo que saiu à porta de casa, Roberto Carlos se encontrou com sua amiga Eunice Solino, uma menina da sua idade, que ele carinhosamente chamava de Fifinha. (…)

Pois naquela manhã os dois desceram mais uma vez juntos em direção ao local dos desfiles. Ao chegarem num largo, logo abaixo da rua em que moravam, já encontraram todos em plena euforia. Desfiles escolares, balizas e muitos balões coloriam o céu do pequeno Cachoeiro, ao mesmo tempo em que locomotivas se movimentavam para lá e para cá. Construída na época dos barões do café, no século XIX, quando a cidade era um paradouro de trem de carga, a Estrada de Ferro Leopoldina Railways atravessava Cachoeiro de ponta a ponta.

Por volta de nove e meia da manhã, Zunga e Fifinha pararam numa beirada entre a rua e a linha férrea para ver o desfile de um grupo escolar. Enquanto isso, atrás deles, uma velha locomotiva a vapor, conduzida pelo maquinista Walter Sabino, começou a fazer uma manobra relativamente lenta para pegar o outro trilho e seguir viagem. Uma das professoras que acompanhava os alunos no desfile temeu pela segurança daquelas duas crianças próximas do trem em movimento e gritou para elas saírem dali. Mas, ao mesmo tempo em que gritou, a professora avançou e puxou pelo braço a menina, que caiu sobre a calçada. Roberto Carlos se assustou com aquele gesto brusco de alguém que ele não conhecia, recuou, tropeçou e caiu na linha férrea segundos antes de a locomotiva passar. A professora ainda gritou desesperadamente para o maquinista parar o trem, mas não houve tempo. A locomotiva avançou por cima do garoto que ficou preso embaixo do vagão, tendo sua perninha direita imprensada sob as pesadas rodas de metal. E assim, na tentativa de evitar a tragédia com duas crianças, aquela professora acabou provocando o acidente com uma delas.

Diante da gritaria e do corre-corre, o maquinista Walter Sabino freou o trem, evitando consequências ainda mais graves para o menino, que, apesar da pouca idade, teve sangue-frio bastante para segurar uma alça do limpa-trilhos que lhe salvou a vida. Uma pequena multidão logo se aglomerou em volta do local e, enquanto uns foram buscar um macaco para levantar a locomotiva, outros entravam debaixo do vagão para suspender o tirante do freio que se apoiava sobre o peito da criança. Com muita dificuldade, ela foi retirada de debaixo da pesada máquina carregada de minério de ferro. “Eu estava ali deitado, me esvaindo em sangue”, recordaria Roberto Carlos anos depois numa entrevista. Mas naquele momento alguém atravessou apressado a multidão barulhenta e tomou as providências necessárias. “Será uma loucura esperarmos a ambulância”, gritou Renato Spíndola e Castro, um rapaz moreno e forte, que trabalhava no Banco de Crédito Real.

Providencialmente, Renato tirou seu paletó de linho branco e com ele deu um garrote na perna ferida do garoto, estancando a hemorragia. “Até hoje me lembro do sangue empapando aquele paletó. E só então percebi a extensão do meu desastre”, afirma Roberto, que desmaiou instantes após ser socorrido. Esse momento trágico de sua vida ele iria registrar anos depois no verso de sua canção O Divã, quando diz: “Relembro bem a festa, o apito/ e na multidão um grito/ o sangue no linho branco…”, numa referência à cor do paletó que Renato Spíndola usava no momento em que o socorreu. (…)

Naquela mesma manhã, no hospital da Santa Casa, o médico aplicou uma anestesia local de novocaína no acidentado e deu início à cirurgia. (…)

Na época, em casos semelhantes, era comum fazer a amputação da perna acima do joelho, prática mais rápida e segura. Mas Romildo tinha acabado de ler um estudo americano sobre ciência médica que explicava que os membros acidentados devem ser cortados o mínimo possível. Assim, a amputação da perna do garoto foi feita entre o terço médio e o superior da canela – apenas um pouco acima de onde a roda de metal passou. Essa providência fez com que Roberto Carlos não perdesse os movimentos do joelho direito e pudesse andar com mais desenvoltura.

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Favelas no mapa

Brasil
"Favela Comunidade Ricardinho"???

Favela Comunidade Ricardinho está no mapa!

Não sei como funciona o processo que coloca cidades inteiras, nomes de ruas e bairros no Google Maps. Só sei que o sistema não está favorecendo muito o lado “maravilhoso”  do Rio de Janeiro.

A imagem acima é o que se vê quando o Rio é visualizado pelo serviço de mapas do Google, com um zoom médio.

E vamos à contagem:

  • Favela Fazenda do Coqueiro
  • Favela R. Iguaçu
  • Favela de Ramos ou Ruth Ferreira
  • Favela Parque Rubens Vaz
  • Favela Rer. Saudoso
  • Favela Teixeira Bastos
  • Favela Morro do Fubá
  • Favela Vila Sapé
  • Favela Caminho do Marinho
  • Favela do Rio Morto
  • Favela Vila dos Crentes
  • Favela Vila Nova
  • Favela Comunidade Ricardinho
  • Favela R. Modesto Brocos
  • Favela Dona Marta
  • TOTAL: 15 favelas
  • Realengo
  • Padre Miguel
  • Campo dos Afonsos
  • Barra da Tijuca
  • Gávea
  • Vidigal
  • Itanhangá
  • Ipanema
  • TOTAL: 8 bairros/regiões

Que chinelagem, hein? 15 a 8 para as favelas no placar do Google! E olha que separei apenas um trechinho de 500 pixels de largura. O mapeamento favelário é muito mais extenso.

Mas… Cadê as favelas famosas? Aquelas que estamos acostumados a ouvir falar no Jornal Nacional: Rocinha, Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Complexo do Alemão. Tinham todas que aparecer nesse mesmo mapa, mas o Google ignorou.

É o que dá automatizar tudo nesse mundo: além de escancarar que o Rio de Janeiro parece ter muito mais favelas do que “bairros” propriamente ditos, o sistema deixa de exaltar os pontos mais gloriosos da pacata capital fluminense.

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TPM não é desculpa para bater no colega

Gente

Quem me conhece pessoalmente já deve ter percebido que a minha primeira reação à maioria das histórias que ouço é duvidar. Eu duvido com facilidade de qualquer história mal contada e, especialmente, de fonte sem autoridade no assunto.

Pois esses dias ouvi de uma mulher, no trabalho: “Eu estou na TPM! E se eu tivesse batido naquele colega que estava me irritando, nem poderia ser demitida já que agora a legislação trabalhista não autoriza punições a mulheres na TPM.”

Duvidei que a legislação trabalhista incluísse algo assim. Nem agora nem nunca.

A pesquisa foi árdua e confesso que não encontrei nenhuma fonte que afirmasse categoricamente que a CLT não dá guarida a mulheres ouriçadas pela iminência do vazamento do endométrio uterino. Mesmo assim, estou colocando minha mão no fogo para afirmar: a minha colega estava errada e se tivesse batido no companheiro de firma estaria, sim, perigando ir pra rua.

Pesquisei de tudo quanto é jeito e não achei nenhuma referência a qualquer lei desse gênero. Nem a legislação federal arquivada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, nem o próprio texto da Consolidação das Leis do Trabalho fazem qualquer menção à TPM.

Agora… Encontrei algumas informações interessantes sobre a tal tensão:

  • Só no estado de São Paulo, são 7 mil policiais civis femininas na ativa. Se a mulher passa de 5 a 7 dias por mês em TPM (16% a 25% do tempo), já imaginaram o risco que é ter 1750 mulheres armadas e irritadas andando pelas ruas?
  • Há juristas que utilizam a TPM como argumento para tentar diminuir a pena de mulheres que cometem crimes como assassinatos. Só não consegui descobrir se isso já colou em algum tribunal brasileiro.
  • Embora a TPM não esteja nas leis trabalhistas, em 2003 uma deputada deferal do PT de São Paulo tentou garantir por lei o tratamento deste distúrbio na rede hospitalar brasileira. Não vingou. O projeto foi arquivado.

Se alguém tiver alguma informação que contradiga a minha não-descoberta, por favor deixe um comentário.

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Nunca ouvi falar de zorrilho

Natureza

Seguíamos de carro, a pequena e eu, por uma estrada rumo ao interior, numa tarde ensolarada de domingo. De repente, um cheiro estranho envolve o ambiente. Não, eu não fiz nada. Muito menos ela, claro! O cheiro vinha de fora, do capim à beira da rodovia.

“Viu? É o cheiro de zorrilho”, disse minha namorada.

Nunca ouvi falar de zorrilho em minha vida. Ou melhor… Nunca tinha ouvido falar de um bicho desses até pouco tempo atrás. A patroa insistia que determinado odor desagradável, sentido ao ar livre, era provocado por esse tal bicho.

O teimoso aqui achou que era lenda. Como a nhonha que se “caça” nos retiros da igreja (este um assunto para outro post, com certeza). Fui pesquisar, claro. E tenho que dar o braço a torcer: esse tal zorrilho existe mesmo.

Olha ele aí!

Olha o zorrilho aí!

Resumindo: trata-se de um gambá. O nome científico é Conepatus chinga. Pode ser também chamado de jaritataca ou canganbá (embora algumas fontes digam que estas já seriam espécies diferentes).

E o cheiro? Hummm… O zorrilho tem uma poderosa glândula anal que produz um líquido fedorento, usado para defesa.

Zorrillo também é uma palavra em espanhol que signigica… zorrilho! Também é sinônimo para gambá, ou para pessoa malcheirosa ou ainda, no Chile, para veículo policial capaz de lançar gás lacrimongêneo.

El Zorrillo também é o nome de inúmeras cidadezinhas no México.

Em resumo: todo mundo conhece zorrilho, menos eu.

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Baleias das Ilhas Feroe

Mundo
Matança de baleias na Ilhas Feroe

Caça às baleias: veja aqui todas as imagens!

Esses tempos recebi um email que não deu para ignorar. Uma sucessão de fotos mostrando dezenas de homens chacinando golfinhos e baleias na beira de uma praia. Imagens fortes e abundantes. Sangue para todo o lado. (Clique aqui para ver o email)

O texto não era rico em explicações, mas também não economizava críticas ou adjetivos condenatórios: “Pode parecer incrível, mas este costume continua ainda hoje, nas Ilhas Feroe (Dinamarca). Um país supostamente civilizado e membro da União Europeia.”

Nossa equipe ficou curiosa sobre os detalhes e a veracidade do evento e foi pesquisar (tudo online, como o bonato.cc se propôs a fazer).

Embora o endereço da marca d’água das fotos levasse a um site árabe de baboseiras, a profusão de imagens deixava claro que não se tratava de uma montagem. A caça de baleias (e alguns golfinhos) nas Ilhas Feroe acontece mesmo, todos os anos. Eles têm até um site oficial.

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Baleia piloto

O arquipélago das Ilhas Feroe tem 17 ilhas habitadas por meras 47 mil pessoas, e fica no meio do caminho entre a Inglaterra e a Islândia. O email traz uma informação distorcida: Feroe é oficialmente parte da Dinamarca, mas é território autônomo e nunca aderiu à União Europeia. Há inclusive um movimento que busca a total independência. Dessa forma, ficaria difícil para a UE aplicar uma eventual punição à matança das baleias.

Mas por que diabos eles fazem isso? É tradição há pelo menos 500 anos. Participar do evento, matando as baleias piloto com a faca em punho é considerado um rito de passagem para os meninos das ilhas. Também é uma maneira usual de garantir a alimentação da população local.  A carne é distribuída gratuitamente entre os participantes, e qualquer um pode ajudar. Anualmente são caçadas em média 950 baleias piloto.

A técnica não é muito complexa. Quando um grupo de animais surge perto da ilha, elas são cercadas por barcos e encurraladas em uma baía. Algumas baleias encalham na areia. Outras são puxadas para lá por ganchos e cabos de aço.

O vídeo acima tem imagem “ao vivo”, além das fotos. Os próprios pescadores admitem que não é uma cena bonita, mas se defendem:

A caça das baleias piloto, por natureza, é uma visão dramática e sangrenta. Grupos de animais são mortos na costa e nas praias com facas que são usadas para cortar o suprimento de sangue para o cérebro. Esta é a maneira mais eficiente e humana de matar as baleias, dadas as circunstâncias, mas isso resulta em muito sangue na água. É compreensível que tenha havido em outros países reações fortes à cobertura da mídia e às fotos, especialmente em comunidades urbanas, onde a maior parte das pessoas nunca testemunhou os procedimentos de abate utilizados na produção de qualquer carne.

A caçada cruel tem sido alvo de críticas especialmente de ONGs ambientalistas como o Sea Sheperd. Quem quiser ajudar nos protestos pode inclusive participar de abaixo assinado online, pedindo o fim da matança.

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Tudo em seu lugar

Editorial

Tudo está em seu lugar… Graças a Deus. E graças, claro a algumas horas de programação de código, pesquisas sobre as mudanças de template, etc. Graças também ao André, designer oficial do clã, que fez as alterações necessárias nos gráficos do site. Depois de meses de promessas, podemos finalmente começar os trabalhos.

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